domingo, 28 de Setembro de 2014

Anoitece

Veludo negro desce sobre o meu dorso frágil,
são penas de corvo que se soltaram da tempestade sombria
e golpeiam-me a pele nua e pálida...
O mar foge da areia líquida e espumosa,
é sugado pelos ventos quentes do sul,
secando as guelras de quem dele se alimentava...
A aurora demora-se no prateado cósmico da lua,
hipnotizada pelo brilho de perfume salgado
que vagueia pelas marés perdidas da noite.

Sucumbo entre as dunas e o rugido do mar,
enquanto me aconchego nesse manto estrelado
que me acaricia os olhos cansados...

sábado, 20 de Setembro de 2014

Lua

Abandono-me no teu leito sedoso,
entregue ao teu toque e ao teu perfume de almíscar
para te sorver o néctar que brota dos teus poros,
para me provares a seiva quente
que me palpita o ventre húmido.

Sou feita de mar e céu
prenhe de água doce e salgada,
para te purificar o corpo em chamas,
banhar-te num manto macio
de volúpia e prazer,
enquanto arquejo no teu colo ereto,
cavalgando sobre os teus ramos,
carregados de suculentas frutas.

Destilas rum sobre a rigidez dos mamilos colados a ti,
enquanto me penetras com suavidade
na concha firme e flexível
como uma boca de seda humedecida,
sedenta dos nutriente
que te correm na guelra.

Como uma abelha viciada em pólen
procuro-te entre o jardim de girassóis e madressilvas
mas não te encontro rosmaninho,
esse aroma fresco e pungente
com que me beijas a vulva em fogo
e os lábio em licor de amora.

Vem-te em espuma
como as ondas que lambem a areia prateada...
Rasga o firmamento
como uma estrela cadente
e transforma-te no planeta de água
que preciso de orbitar para de novo ser Lua.

quarta-feira, 10 de Setembro de 2014

Terra queimada















Palmilho este caminho de pedras quentes,
escaldando-me as plantas dos pés nus
como uma penitência, uma cura
por todos os incêndios que ateei à floresta da vida.

Em carne viva, percorro-te o corpo
de silvas e ervas daninhas
em busca da fonte de água fresca
que me há-de aliviar esta dor.

Mas a queimadura ficará para sempre,
em forma de cicatriz mais escura
como uma tatuagem da minha história,
um sinal que não se apaga, que permanece…

quinta-feira, 4 de Setembro de 2014

Firmamento













Quero engolir cada pedaço de céu
que o meu olhar avista,
saborear essa candura de algodão doce
que polvilha a pele da cor do mar…

Deslizar o dedo em cada andorinha
que te rasga o ventre liso e macio
abrindo-te uma fenda escura,
onde se abrigam morcegos e corujas,
sedentos do infinito que prometes dar,
ávidos dessa eternidade longínqua
que escondes debaixo do manto azul…

Quando cai a noite, vestes-te de negro,
mas trazes o brilho das estrelas
enquanto a maior delas todas se deita
para dar as boas-vindas à deusa de capa prateada.
Ela surge logo depois de te dissolveres
em amarelo-torrado, laranja e lilás no horizonte,
dança em quarto crescente até ser lua cheia!

terça-feira, 2 de Setembro de 2014

Aranha do mar














Em lânguidas ondas prateadas de espuma
beijas-me o corpo nu deitado na areia húmida,
sob um manto de estrelas sedentas de luz…

Saboreio-te esse licor salgado
enquanto me sulcas o ventre
em jatos de água fresca e transparente.
Prendo-te entre as coxas nuas
mas o teu corpo liquefaz-se no meu
penetrando-me os poros da pele.

Evaporas-te e ganhas a forma de uma nuvem,
sobrevoas-me o plexo revolto,
observando cada movimento ondulante,
tecendo uma teia lasciva e sedutora.

É quando uma brisa mais fresca
te materializa em chuva sobre o meu corpo:
gotas de néctar adocicado
alimentam-me os seios hirtos e ofegantes,
escorres-me pela curva da anca…
Envolvo-te na minha teia dourada,
deixas-te prender inebriado de prazer
e a seguir degolo-te vorazmente…

quarta-feira, 14 de Maio de 2014

Pequenina outra vez!















Estendo os braços pálidos
no vento frio que cobre a noite…
Deslizo entre nenúfares transparentes
para o teu leito de estrelas e luar
e baloiço no teu colo enquanto me acaricias a tez dourada…

Finalmente consigo libertar-me deste vestido pesado
que se arrasta no chão como um arado…
E levito entre sonhos de mar e alecrim,
entre a frescura salgada da rebentação marinha
e o perfume adocicado do rosmaninho numa clareira ao entardecer…

Quero ser pequenina outra vez!



quarta-feira, 7 de Maio de 2014

Poesia















Fujo da palavra escrita,
que materializa esta dor intangível
em sombras negras e obscuras,
que uivam asperamente no meu ouvido…
Fujo desta folha imaculadamente branca,
com receio de a tingir com os meus fantasmas
e os demónios que se apoderaram do meu corpo!

Fujo….
….mas sinto falta de ti…
de te ler… de te recitar…
Procuro-te uma e outra vez cá dentro
mas não te encontro...

Chamo por ti...
               ... sedenta do teu licor...
do alimento que me mantém viva e fértil!
Só tu me poderás cortar as algemas de espinhos
que me aprisionam dentro desta gruta infernal!