sexta-feira, 17 de junho de 2016

É preciso

É preciso doer, gritar, morder os lábios,
encerrar as pálpebras, chorar…
É preciso esticar o tronco, despir,
pele nua contra o lençol da morte,
pairar sobre o vazio, sentir pender a cabeça
sobre uma almofada de lágrimas espessas
e um tubo sugar-te as entranhas tóxicas
para saíres da sombra onde te escondes.

É preciso cerrar os punhos, prender o último sopro,
projectá-lo nos olhos que se estendem por dentro do corpo…
É preciso saber de que matéria somos feitos,
que fantasmas nos atormentam o pensamento
e chicoteá-los com a serpente que nos lambe o veneno.

É preciso atravessar este caminho íngreme e lúgubre,
partir em direcção ao mar e ao sol,
pisar a areia molhada e saborear a maresia salgada,
voar por dentro para me descobrir
e libertar das lágrimas e da escuridão
que me consomem viva…

É preciso…
para abraçar este novo mundo de magia
que se fecunda em florestas, roseirais e pomares,
voa no dorso das andorinhas, poisa nos ninhos das cegonhas
e mergulha junto de golfinhos, algas e corais marinhos.



quinta-feira, 9 de junho de 2016

O Devir



Corro pela avenida deserta de gente,
despida de vultos e sombras,
ausente de vento e paisagem…

Pálpebras fechadas, pestanas cerradas…
apenas duas lágrimas me aconchegam a face
e me fazem sentir viva…

Corro, esvoaço sobre o mar invisível,
perco-me entre dunas de areia intangível,
absorvo o sal desta água que me toca os lábios
não é fria como a chuva, mas quente…

Nado contra essa corrente morna e transparente
que me inunda o olhar cego
para te colher ainda fresco e sumarento.


Estrada


Asfalto negro e ardente
sob os meus pés nus, sujos de sangue,
feres-me em cada passo sonâmbulo
mas ainda assim calco-te com fervor
esperando arrefecer a lava que te suga e destrói.

Nuvens brancas tingem-se de chuva cinza,
autoestradas de zombies perseguem o abismo
ladeado por pinheiros bravos despidos de folhas.

Vento de leste rebola na terra seca, estéril,
onde resiste uma rosa de espinhos vermelha,
que me bebe a água subterrânea do ventre
e alimenta-se do sémen que destilas
no movimento das placas tectónicas.

Alcatrão negro e escaldante
sob o meu corpo queimado…


quarta-feira, 27 de abril de 2016

Não ser

Esfrega os olhos, a boca, o rosto
na lama que te sustenta o corpo pálido…
Desata o espartilho que te sufoca o peito,
a carne e as costelas rubras
e grita a plenos pulmões até as lágrimas
te derreterem o fel que pulsa nas veias…

Desamarra o cordão umbilical da matéria
que sulca as rochas como ondas bravas de mar
e mergulha nesta cratera seca, estéril
até seres pó e fumo transparente
cavalgando no dorso das nuvens negras
que se adensam sob a tua forma disforme.


segunda-feira, 8 de fevereiro de 2016

Despertar da Terra do Fogo











Inspiro-te brisa das estepes frias…
os mamilos contraem-se num grito sibilante, ardente,
esvoaçando infinitamente tangente ao teu corpo nu…
Lábios semiabertos recebem-te em suor e lágrimas,
expirando o vapor quente que me consome o ventre rubro.

Deslizo-te entre os dedos em fios de água morna,
derretendo o gelo que te cobre a encosta verdejante,
descobrindo tocas de esquilos e frutos silvestres,
esconderijos de toupeiras, ninhos de andorinhas.

A lua desperta em chamas num manto de estrelas,
enquanto mergulho na tua íris esmeralda,
enquanto penetras este caminho ladeado de dunas
e um rio escaldante se liberta da minha represa…

sábado, 6 de fevereiro de 2016

Lama

Calco as sombras que me tingem a pele nua,
danço entre nuvens cinzentas e charcos de luz,
procurando-te lençol de água pura,
escondido debaixo da lama sangrenta
que degola a aurora clara e a chuva macia.

Enterro as mãos nessas areias movediças
que devoram o leito de um rio que mirrou…
Montanhas de granito denso sulcam-te o corpo febril.
Bandos de corvos e morcegos embriagados
copulam nessa fonte de fel e troncos despidos
sob uma lua pálida, perdida…

Esvoaço entre colinas de sol e vales de sombra,
cegonha que abandonou o ninho quente
e partiu para os bosques frios de inverno
em busca da desumanidade pacífica e repelente...