quarta-feira, 14 de Maio de 2014

Pequenina outra vez!















Estendo os braços pálidos
no vento frio que cobre a noite…
Deslizo entre nenúfares transparentes
para o teu leito de estrelas e luar
e baloiço no teu colo enquanto me acaricias a tez dourada…

Finalmente consigo libertar-me deste vestido pesado
que se arrasta no chão como um arado…
E levito entre sonhos de mar e alecrim,
entre a frescura salgada da rebentação marinha
e o perfume adocicado do rosmaninho numa clareira ao entardecer…

Quero ser pequenina outra vez!



quarta-feira, 7 de Maio de 2014

Poesia















Fujo da palavra escrita,
que materializa esta dor intangível
em sombras negras e obscuras,
que uivam asperamente no meu ouvido…
Fujo desta folha imaculadamente branca,
com receio de a tingir com os meus fantasmas
e os demónios que se apoderaram do meu corpo!

Fujo….
….mas sinto falta de ti…
de te ler… de te recitar…
Procuro-te uma e outra vez cá dentro
mas não te encontro...

Chamo por ti...
               ... sedenta do teu licor...
do alimento que me mantém viva e fértil!
Só tu me poderás cortar as algemas de espinhos
que me aprisionam dentro desta gruta infernal!

segunda-feira, 10 de Março de 2014

Mergulho




















As páginas voltaram ao cal de outrora,
à candura luminosa da ausência
que dispara em flecha sobre o olhar luzidio,
plantado neste rosto sombrio
de lábios trémulos e roxos…

As raízes secaram neste plexo estéril e desidratado…
A seiva que corria feroz cá dentro
esvaiu-se numa poça de lágrimas ácidas
que me corroem o ventre ensanguentado…

Nesse espelho de água barrenta,
flutua o meu corpo dormente e gelado…
Não lhe sinto qualquer batimento cardíaco,
apenas o soluçar de mais uma lágrima perdida,
único elemento que conseguiu escapar com vida…

segunda-feira, 30 de Dezembro de 2013

Fénix















Percorro o asfalto de pés descalços,
é uma língua negra, vazia,
que me tinge de silêncios líquidos
e me enrola de dúvidas cheias de espinhos
como os catos que rareiam
neste solo de areia fina e pálida...

Caminho estrada fora...
o olhar preso na linha ilusória do horizonte...
as memórias cravadas no peito,
seladas em crostas de sangue seco...

Guardo cada pétala que encontro perdida 
neste mar de cimento compacto e sem vida...
Vou colhendo essas migalhas de sonho
que se soltaram daquela nuvem dourada,
a mesma que nos fez voar como pássaros de fogo
sobre o castelo encantado da eternidade!

Se caí, volto a levantar-me como a fénix que renasce das cinzas
para trepar essa corda que seguras do alto dessa nuvem
e devolver as pétalas perdidas do nosso jardim mágico!

quinta-feira, 26 de Dezembro de 2013

Presa dentro de mim

Escrevo-te num intervalo de luz intermitente,
analgésico da solidão escura e gelada 
que me desliza na pele nua em gotas de chuva ácida…

Agarro este pedaço de carvão ainda quente,
que saltou de uma fogueira adormecida,
para desenhar as palavras mudas 
que gritam cá dentro
como aves de rapina encarceradas
implorando céus de liberdade!

Observo as estrelas que te iluminam o corpo celeste,
perscrutando no firmamento o cometa 
que me libertará desta prisão interna feita de lágrimas!

sábado, 2 de Novembro de 2013

Viúva negra
















Não quero mais ser a paleta vazia de cor, pálida,
nem um mero expositor de tintas em carne viva
à mercê dos tentáculos de um pincel vadio e moribundo,
autor das telas que me pintam os olhos de lágrimas...

Não quero mais ser o projetor de luz de um palco de sombras,
sem pele, suor, vozes e saliva,
pedaço de chão negro abandonado,
coberto com uma fina camada de pó cinza
e com um círculo luminoso ao centro apontado.

Não quero mais ser reclusa da minha teia,
mas antes deslizar nessa rede como uma viúva negra,
desfiando lençóis de água sobre o teu leito queimado pelo sol,
refrescando esse ardor que te consome em lume brando...

Inspiro os ventos glaciares e chamo a neblina das madrugadas
para dar à luz pétalas de gelo,
polidas pela erosão do granizo de Inverno, 
filamentos cristalinos que te estancam essa lava,
transformando-a no rio que me corre nas veias...

quarta-feira, 23 de Outubro de 2013

Aguarelas

Aguarelas salgadas escorrem-me das pálpebras cansadas,
tingem-me o rosto de lágrimas prateadas, translúcidas,
cicatrizando as feridas deixadas pelo pincel de ponta larga e abrasiva
que me desenhava lábios cerrados e testas franzidas...

Procuro a tela despida, branca, vazia,
onde posso renascer com novas formas e cores,
onde me diluo nesse fluxo inicial que se esconde em cada poro,
e se esvai nos filamentos nervosos da carne em que tocas...

Abro os lábios para te receber lentamente,
saboreando-te os aromas que se erguem à lingua do meu ventre...
Envolvo-te na minha saliva transparente e aveludada,
enquanto danço e contraio repetitivamente,
em movimentos contínuos e vorazes que ardem em suor e sémen...
prendo-te mais ainda quando a minha fonte quente te acaricia a pele nua,
liberto-te por instantes para voltar a sorver esse suco,
néctar afrodisíaco de canela e gengibre 
com perfume a mar, sabor a terra e cor do fogo...
... aguarelas...