quarta-feira, 27 de abril de 2016

Não ser

Esfrega os olhos, a boca, o rosto
na lama que te sustenta o corpo pálido…
Desata o espartilho que te sufoca o peito,
a carne e as costelas rubras
e grita a plenos pulmões até as lágrimas
te derreterem o fel que pulsa nas veias…

Desamarra o cordão umbilical da matéria
que sulca as rochas como ondas bravas de mar
e mergulha nesta cratera seca, estéril
até seres pó e fumo transparente
cavalgando no dorso das nuvens negras
que se adensam sob a tua forma disforme.


segunda-feira, 8 de fevereiro de 2016

Despertar da Terra do Fogo











Inspiro-te brisa das estepes frias…
os mamilos contraem-se num grito sibilante, ardente,
esvoaçando infinitamente tangente ao teu corpo nu…
Lábios semiabertos recebem-te em suor e lágrimas,
expirando o vapor quente que me consome o ventre rubro.

Deslizo-te entre os dedos em fios de água morna,
derretendo o gelo que te cobre a encosta verdejante,
descobrindo tocas de esquilos e frutos silvestres,
esconderijos de toupeiras, ninhos de andorinhas.

A lua desperta em chamas num manto de estrelas,
enquanto mergulho na tua íris esmeralda,
enquanto penetras este caminho ladeado de dunas
e um rio escaldante se liberta da minha represa…

sábado, 6 de fevereiro de 2016

Lama

Calco as sombras que me tingem a pele nua,
danço entre nuvens cinzentas e charcos de luz,
procurando-te lençol de água pura,
escondido debaixo da lama sangrenta
que degola a aurora clara e a chuva macia.

Enterro as mãos nessas areias movediças
que devoram o leito de um rio que mirrou…
Montanhas de granito denso sulcam-te o corpo febril.
Bandos de corvos e morcegos embriagados
copulam nessa fonte de fel e troncos despidos
sob uma lua pálida, perdida…

Esvoaço entre colinas de sol e vales de sombra,
cegonha que abandonou o ninho quente
e partiu para os bosques frios de inverno
em busca da desumanidade pacífica e repelente...

domingo, 20 de dezembro de 2015

Liberdade



Procuro-te com água na boca quente...
O corpo ereto e humedecido que me acaricia o ventre,
prendo-te entre as mandíbulas de carne viva
e engulo-te lentamente entre língua e garganta...

Dispo-me sob a noite fria e estrelada,
absorvendo-te o hálito licoroso
que me escorre entre os lábios da vulva.

Derreto-me na tua saliva a ferver,
cavalgo-te nua sem freio nem rédeas,
livre para te devorar sem receios.

terça-feira, 1 de dezembro de 2015

Partida

O asfalto rijo cola-se-me ao corpo febril e nu...
Inspiro devagar o oxigénio que me chega aos pulmões
em sulcos de fumo e poças de água turva,
estou viva mas em estado de coma emocional...

O nevoeiro cerrado cerca-me a vista agora cega,
o vento empurra-me a pele dormente e pálida,
os ossos gemem mas as veias continuam adormecidas...

No cume da serra polvilhada de branco macio,
vislumbro um horizonte azul e luminoso,
banhado por teias de orvalho morno...

Quero habitar-te planeta mágico e surreal
e abandonar esta existência sem sentido...


sexta-feira, 25 de setembro de 2015

Renascer no submundo

Germinei em viúva negra,
danço sobre tentáculos de veludo
nesta teia que ferve
suor e lágrimas,
humedecendo-te o corpo estéril.

Sorvo as últimas gotas de sémen
que destilas em convulsivos orgasmos mudos,
cravo-te as mandíbulas afiadas
na carne viva que ainda pulsa
dentro dessa carcaça de réptil,
chupando-te o último suspiro
que palpita nessa ereção involuntária,
onde ejaculo charcos transparentes,
prenhes de futuros invisíveis.