Escrevo-te num intervalo de luz intermitente, analgésico da solidão escura e gelada que me desliza na pele nua em gotas de chuva ácida… Agarro este pedaço de carvão ainda quente, que saltou de uma fogueira adormecida, para desenhar as palavras mudas que gritam cá dentro como aves de rapina encarceradas implorando céus de liberdade! Observo as estrelas que te iluminam o corpo celeste, perscrutando no firmamento o cometa que me libertará desta prisão interna feita de lágrimas!
Não quero mais ser a paleta vazia de cor, pálida, nem um mero expositor de tintas em carne viva à mercê dos tentáculos de um pincel vadio e moribundo, autor das telas que me pintam os olhos de lágrimas... Não quero mais ser o projetor de luz de um palco de sombras, sem pele, suor, vozes e saliva, pedaço de chão negro abandonado, coberto com uma fina camada de pó cinza e com um círculo luminoso ao centro apontado. Não quero mais ser reclusa da minha teia, mas antes deslizar nessa rede como uma viúva negra, desfiando lençóis de água sobre o teu leito queimado pelo sol, refrescando esse ardor que te consome em lume brando... Inspiro os ventos glaciares e chamo a neblina das madrugadas para dar à luz pétalas de gelo, polidas pela erosão do granizo de Inverno, filamentos cristalinos que te estancam essa lava, transformando-a no rio que me corre nas veias...
Aguarelas salgadas escorrem-me das pálpebras cansadas, tingem-me o rosto de lágrimas prateadas, translúcidas, cicatrizando as feridas deixadas pelo pincel de ponta larga e abrasiva que me desenhava lábios cerrados e testas franzidas... Procuro a tela despida, branca, vazia, onde posso renascer com novas formas e cores, onde me diluo nesse fluxo inicial que se esconde em cada poro, e se esvai nos filamentos nervosos da carne em que tocas... Abro os lábios para te receber lentamente, saboreando-te os aromas que se erguem à lingua do meu ventre... Envolvo-te na minha saliva transparente e aveludada, enquanto danço e contraio repetitivamente, em movimentos contínuos e vorazes que ardem em suor e sémen... prendo-te mais ainda quando a minha fonte quente te acaricia a pele nua, liberto-te por instantes para voltar a sorver esse suco, néctar afrodisíaco de canela e gengibre com perfume a mar, sabor a terra e cor do fogo... ... aguarelas...
Escondes-te nessa clareira prateada de areia fina, protegida por ciprestes altos e sobreiros frondosos, guardiões do último pedaço de luz celeste que ainda sobrevive no manto de escuridão que cobre a terra... Desenho-te as pegadas que tatuas enquanto caminhas, absorvo-te o suspiro de alívio quando amanhece ou em noite de lua cheia, mas não te conheço forma física ou cor de pele, apenas uma mancha escura e ondulante que esvoaça projetada no círculo de terra clara e macia, sempre iluminada: de dia pelo sol, à noite pelas estrelas e pelo luar e quando é preciso pelos pirilampos ou por uma fogueira... Pendurada no ramo mais alto de um carvalho já consumido pelas sombras, observo-te ao longe com a minha penugem de coruja branca: os meus grandes olhos negros sabem que a tua missão é pintar o mundo! Ofereço-te uma das minhas penas e uma paleta de tintas... A água das chuvas e a seiva das plantas mas também o pólen das flores e as abelhas serão os teus guias após o meu voo da despedida!
Escutas o murmúrio da noite, entre as ondas ralas de água doce que desaguam nos meus olhos de lágrimas... Bebes o luar nesse baloiço de prata, que o vento sopra contra a tua corrente e salpicas-me os lábios assim que atravessa um barco... Sentada num dos teus braços de terra húmida, estendo-te os pés descalços enquanto observo-te o caminho até ao mar... Não tens o sal marinho que beija o pôr-do-sol, mas conheces o ventre que te deu vida! És a língua que sacia montanhas e planícies, viveiro de mares e oceanos.
Agarro-te esse traço curvo com que finalizas o meu nome, a tinta escura que desliza da caneta tinge-me a bainha negra que se desprende do vestido de cetim violeta... Reconheço-te esse contorno mais forte que sublinha vogais abertas, sons exclamativos e a sombra mais frágil e trémula retida nas entrelinhas, quando hesitas, escreves e rabiscas traços inseguros, que se desprendem e esvoaçam pelas páginas do teu livro... Rasgo uma e outra folha completamente vazias pálidas, despidas... sem uma linha ou um risco indevido... É uma ausência de ser, uma apatia profunda que se abate sobre os meus olhos embaciados como se o amanhã não pudesse nascer, qual rebento de planta que não consegue desabrochar e dar flor, como se o passado se desfizesse entre os dedos de uma criança deslizando em grãos de areia fina e branca...
Descanso o meu reflexo nesse espelho de luz salgada que navega entre as duas margens de um corpo sem destino... São os reinos do sol nascente e da lua cheia que marcam a valsa das marés e dos ventos! Bebo-te o orvalho da manhã e a espuma branca ao entardecer, enquanto desbravas este caminho subterrâneo de água doce para desabrochares na boca quente que te faz renascer uma e outra vez...! Mas esta sede de mar que estremece cada nervo do meu ventre, cada poro da minha pele faz-me planar sobre ti como uma águia insaciável pronta a caçar a sua presa...!