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quinta-feira, 26 de julho de 2012

Incendiários















Tudo o que resta são cinzas
que serpenteiam nas encostas das montanhas,
outrora verdejantes e abrigo de lobos e raposas...
Copas e ramos que escondiam ninhos de cucos e perdizes
são apenas fotografias do que o fogo já consumiu,
memórias esmagadas pelo horizonte queimado
e a cortina de fumo que nos enclausura
numa terra sem estrelas e lua.

Aqui as fontes secaram,
mas as lágrimas vão escorrendo lentamente lá em cima,
pelas encostas cada vez menos geladas da Gronelândia,
empurrando o mar que vai engolindo o cimento do litoral,
tomando de assalto o espaço roubado à Vida Natural!

Parecemos suicidas,
porque insistimos em destruir a nossa casa...
Ou seremos loucos masoquistas
que se regozijam com o sofrimento da incerteza?


quarta-feira, 20 de abril de 2011

Fujo... de quê?

Calco a terra batida que a chuva vai molhando.
Escorrem-me as cores da vida inexistente
como o arco-íris que rasga o céu cinzento,
num êxtase arrepiante e fugaz,
como este sorriso que me atiras no ar…
Tento bebê-lo, provar-lhe o veludo e o calor
da pele quente, nua,
brilhante, húmida.

Caminho descalça, livre…
lama, água fria, vento
e o cabelo esvoaça rebelde em fúria!
Estendo os braços e crescem-me penas largas,
acelero, marcas o compasso…

Fujo… de quê? Para onde?
A que mundo pertenço?
Não me sinto quem sou,
não possuo o que tenho.
Mas para quê ser dono
do que nunca será teu mas de todos?

A luz dissipa-se em farrapos violeta,
nesse manto que me limita o olhar,
feito de manchas azuis que vão escurecendo…

Respiro fundo…
A maresia devolve-me a alma
em espuma branca,
num embalo doce e sereno…

terça-feira, 29 de março de 2011

Coroa de espinhos















Eis quando levanto a coroa de espinhos
que todos os dias me atiram,
rasgando esta carne de ira,
salgada de lágrimas e suor,
e olheiras que baloiçam no rosto febril…

As pálpebras caiem no chão como chumbo,
rolam pelo asfalto escuro
e ficam a boiar
na borda de uma poça de água turva.

Marchamos na estrada sem rumo,
de espinhos cravados no pensamento
que nos cegam e amordaçam.
Temos direito a vacinas contra a luta,
encharcam-nos com analgésicos
para mantermos este trilho sonâmbulo.

Mas chegou a hora…
Levantem esses olhos cerrados
bebam o azul onde mora a liberdade
e cortem as amarras da escravatura.

quinta-feira, 10 de março de 2011

Existência



















Vejo-te nua
sob a luz quebradiça
de um candeeiro de rua.
Toco-lhe a ferrugem de 27 anos,
a minha sombra difusa
estremece com o vento fraco
que sussurra a canção grave do mar.

Despida do fato social
com que te pintas de homem ou mulher,
ganhas outras cores
como os frutos de um pomar maduro
ou os corais do fundo do oceano.

És areia, terra e lua,
fonte de água pura e transparente,
rio que me contorna a cintura
e beija a foz do meu corpo.

sexta-feira, 11 de fevereiro de 2011

Terra dura














Cavamos a terra dura e seca,
plantamos calos rijos de um lenhador velho…
Sinto-me escrava de pele suja.
Pés nus sobre a noite pálida,
solitária…
Apenas o silêncio
sentado na montanha gelada!

Descobrimos o inferno do meio-dia,
sob os chapéus de palha clara
e a compaixão do crepúsculo violeta
que traz a brisa fresca
e um manto fofo de nuvens negras.

Bebo o orvalho matinal das folhas tenras
e alimento-me da seiva do teu corpo.
Cantam-me os grilos nocturnos
a valsa da insónia
enquanto as cigarras se recolhem
e os pirilampos espreitam curiosos
Uma sombra que respira deitada
nas margens do rio lágrima.

quinta-feira, 6 de janeiro de 2011

Pulsar da Vida!

A vertigem de me sentir viva,
correndo numa cascata de água doce,
livre, fresca, translúcida,
boiando nos glaciares cristalinos,
percorrendo o calor do deserto
numa extensão infinita de colinas arenosas,
evaporando-me no arfar quente dos felinos,
sorvendo o pólen das flores,
criando ninhos nas copas das árvores de folhas verdes e tenras,
abraçando-me a ti, oceano, viveiro deste Planeta,
para o mergulho triunfante das Orcas...


Quem somos nós neste Universo? Apenas mais um ser vivo que deve respeitar a Grande Casa onde todos habitamos: a Terra!

segunda-feira, 15 de novembro de 2010

A verdade da crise no cinema


Inside Job Trailer

"Inside Job" de Charles Ferguson, o documentário que faltava para explicar esta diabólica crise sustentada num capitalismo tirano, dependente da ganância e do poder, sem escrúpulos.

Revela a prostituição das contas públicas, das poupanças individuais, o suborno das agências de rating, a corrupção bancária, a destruição de uma sociedade que estava no bom caminho para a sustentabilidade como a Islândia.

O que é preciso para travar este "tsunami"? Primeiro, tirar o poder político das mãos de Wall Street e a seguir impor uma regulamentação dura a qualquer instituição financeira. Terá Obama força ou vontade para o fazer? Parece que não... Um filme a não perder!

sábado, 9 de outubro de 2010

Olhos lívidos

















Olhos lívidos pendem-me das cortinas escuras,
são gotas espessas escorrendo pelo vidro gelado
e no parapeito uma poça salgada e difusa
onde vejo o meu rosto desfigurado.

Escondo as cicatrizes nas noites sem luar,
quando as montanhas se dissipam no horizonte
e o céu tinge-se de negro absoluto...
é um véu que se abate sobre a terra clara
e apaga qualquer vestígio de luz.

Morcegos, corujas e mochos,
insectos e lobos
são os únicos sobreviventes desta clausura.
Devoram as presas com prazer e gula
protegidos pela cegueira dos animais diurnos.

Escuto os gemidos atrás da folhagem húmida...
...começou a chover...
o vento empurra-me as portadas de madeira fina
sacode os ramos seminus dos carvalhos
agora ainda mais despidos e solitários
E as nuvens fogem da aurora matinal
cavalgando para a linha umbilical
que prende a terra ao mar.

terça-feira, 28 de setembro de 2010

Saio















Em cada ramo dobra-se, fugidia,
a luz mortiça do final do dia.
Recolhem-se as conversas e as brincadeiras de rua..

Saio por esta porta, decidida!

Perpasso o jardim de madressilvas, jasmim e rosas,
nos dedos escondo esse aroma de veludo...
engulo o ar frio da noite que se inicia
e mergulho no oceano prateado da Lua!

Enrosco-me na areia fofa,
embalada pela melodia das folhas...
o chocalhar sereno e grave dos búzios
nos meus pulsos magros
e o cântico dos rouxinóis
baloiçando no cimo das árvores...

Parto para onde os sonhos governam
e a terra comanda a vida!

quinta-feira, 2 de setembro de 2010

A estrela e o vento



















Vivo em bicos de pés
e braços estendidos ao vento…
No olhar um mar de violetas.

A chuva doce
desagua-me nas pálpebras salgadas,
desliza pelo rosto pálido
e perde-se no contorno dos lábios…
Roubo-lhe o sabor
com a ponta da língua
e deixo-me cair…!

À noite, embalas-me
numa meia-lua de rosmaninho e jasmim;
De dia és o carrossel endiabrado
que sobe, desce e gira
até que as cores se esgotem
nesta aguarela de luz e sombras.

Cintilo no teu dorso invisível…
Juntos, desvendamos os mistérios cósmicos,
conquistamos o espaço desconhecido.

quinta-feira, 20 de maio de 2010

Sweet dreams are made of...



- Fantástica crítica social dos Eurythmics


Vivemos cegos...
as pestanas carregam as cinzas
de lágrimas ardidas
e o fogo vai engolindo verdades,
poluindo a justiça!

Vivemos cegos com os "sonhos"
que nos tingem o pensamento!
São ilusões, mentiras...
que tomamos como anti-depressivos!

Mas o mundo está deprimido...
Vejam!
Basta abrir os olhos
e ver o que está por detrás desses "sonhos"!