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quarta-feira, 6 de abril de 2011
Agora sou terra
E quando acordei já não era vento...
O meu véu transparente ganhou um corpo quente,
subi a tua encosta íngreme
para me espraiar no horizonte
respirei fundo e os aromas salgado do mar
pintaram-me duas lágrimas no rosto!
Quero voar, mas agora sou terra
com bosques e florestas para alimentar,
crescem-me raízes neste continente triste
feito de carne e sangue e ossos e pele.
Perdi a intangênca de apenas ser,
agora existo dentro dos limites da vida,
mas a minha alma guarda a brisa da inocência...
basta abrir a pequena caixa secreta
para abraçar o azul intenso que guardo no olhar!
quarta-feira, 23 de março de 2011
Morte
Sentei-me ao teu colo
sem te conhecer o rosto
escondido na penumbra
de um cipreste antigo.
Segurei-te as mãos de cera fria
e uma dor aguda
trespassou-me a pele e a carne…
Esgueirei-me no teu pescoço de pedra
dei-te o meu hálito quente…
… uma palavra caiu-me dos lábios…
Tentei reanimar-te da vigília perene
onde esperas aqueles que partiram
mas é nessa cadeira de marfim,
com os teus longos cabelos brancos
entrançados em lágrimas de perda e desespero,
que vives as tuas memórias.
Circundo-te, salto novamente para o teu regaço,
mas o teu olhar permanece estático…
As pálpebras cristalizaram…
No dia em que se abrirem
é porque chegou a minha vez.
quinta-feira, 17 de março de 2011
És Eterna
Pó, luz, água…
O marulhar serpenteando-me na pele nua,
pequenos grãos deslizando nesta nudez de lua
enquanto viajo na linha ténue que me separa de ti…
Um dia no teu colo, em tua casa.
Anos de ternura guardados dentro de mim.
Memórias que se renovam a cada lágrima
ganham vida no olhar turvo
com que desenho figuras imaginárias
ilusões feitas de algodão e açúcar.
E mesmo quando não estava lá,
tinha-te cá dentro…
Vives no meu jardim de rosas e tulipas,
por isso és eterna.
Apanhas a brisa da primavera
e voas com as andorinhas,
por fim, regressas com as estrelas
e formas uma nova constelação.
...
É para ti este poema avó.
Partiste, mas continuas viva cá dentro!
sábado, 23 de outubro de 2010
terça-feira, 28 de setembro de 2010
Saio
Em cada ramo dobra-se, fugidia,
a luz mortiça do final do dia.
Recolhem-se as conversas e as brincadeiras de rua..
Saio por esta porta, decidida!
Perpasso o jardim de madressilvas, jasmim e rosas,
nos dedos escondo esse aroma de veludo...
engulo o ar frio da noite que se inicia
e mergulho no oceano prateado da Lua!
Enrosco-me na areia fofa,
embalada pela melodia das folhas...
o chocalhar sereno e grave dos búzios
nos meus pulsos magros
e o cântico dos rouxinóis
baloiçando no cimo das árvores...
Parto para onde os sonhos governam
e a terra comanda a vida!
sábado, 10 de julho de 2010
Sereia
Fonte: Imotion
Os músculos ardem,
gritam-me nas entranhas moídas
notas de uma pauta de silvas e granito..
in de fi ni da...
Estrangulam-me as veias moles,
roídas pelo zumbido agudo
da abelha que perdeu o mel.
Desaguo numa foz sem oceano,
numa terra vazia, deserta.
A folhagem no topo das árvores nocturnas
estremece com o meu sorriso aberto
e uma lágrima salpica a teia de aranha
como o orvalho da manhã.
Onde estou?
Neste paraíso de rocha e verde profundo,
o mar ruge atrás das escarpas.
Espreito por entre dois arbustos de erva cidreira
e ouço o cântico salgado e sedutor.
Embalas-me numa melodia
forte, grave, quente...
… corro para os teus braços...
e de novo sou sereia!
terça-feira, 8 de junho de 2010
Baloiço
Ilustração por Anna Ignatieva
Penduro-me nesse sopro nocturno
de sabor amargo e doce,
fresco como uma cereja madura,
intenso como o aroma do mar salgado…
E sobrevoo o meu corpo desmaiado
entre rubras tulipas e rosas pálidas!
A terra infiltra-se-me nos vasos sanguíneos
e um último raio de lua
acaricia-me a face com a sua mão prateada,
tão macia quanto o veludo negro
da minha cabeleira encaracolada
ou a seda do meu vestido verde.
domingo, 6 de junho de 2010
Nasceram-me asas

Flashes by Anna Ignatieva
"Durante a noite olhava o céu e imaginava que conseguia transformar-me em fumo para deslizar através das ripas da gelosia fechada. Brincava imaginando que um raio de lua me batia nas costas e me nasciam asas cheias de penas para começar a voar."
in "Eva Luna" de Isabel Allende
domingo, 2 de maio de 2010
Uivo da Natureza
Fonte: blogue Originais... E não só!
Com os meus braços de fogo,
inflamo a terra moribunda
e os caminhos secos do deserto
que te irrigam o corpo velho.
O azul que te enchia os lagos e os rios
tingiu-se de negro e pó…
São crateras vazias,
buracos onde a tua alma definha.
Com os meus braços de fogo,
inflamo a terra moribunda
e os caminhos secos do deserto
que te irrigam o corpo velho.
O azul que te enchia os lagos e os rios
tingiu-se de negro e pó…
São crateras vazias,
buracos onde a tua alma definha.
As águas levantam-se em espuma branca
e sacodem o sal na areia escura,
derrubam as muralhas de cimento
que te aprisionam dentro de uma cintura
de casas e indústria.
O mar uiva junto aos meus pés descalços.
Acaricio-te o rosto poluído,
lembrando-te cristalino e transparente.
e sacodem o sal na areia escura,
derrubam as muralhas de cimento
que te aprisionam dentro de uma cintura
de casas e indústria.
O mar uiva junto aos meus pés descalços.
Acaricio-te o rosto poluído,
lembrando-te cristalino e transparente.
terça-feira, 13 de abril de 2010
Terra escura
Fonte da imagem: blogue Lusovox
Terra escura
onde moram sombras vadias…
No teu leito, dormem criaturas perdidas,
filhas da tempestade quente do deserto.
Estendo a manta cinza
nas margens frescas e doces
do único rio que me atravessa a espinha!
E banho-me nas águas puras,
que jorras do teu corpo
perfumado a amêndoas e mel…
Lavas-me as raízes queimadas dos incêndios,
fertilizando-me o solo com novas sementes da vida!
Terra escura
onde moram sombras vadias…
No teu leito, dormem criaturas perdidas,
filhas da tempestade quente do deserto.
Estendo a manta cinza
nas margens frescas e doces
do único rio que me atravessa a espinha!
E banho-me nas águas puras,
que jorras do teu corpo
perfumado a amêndoas e mel…
Lavas-me as raízes queimadas dos incêndios,
fertilizando-me o solo com novas sementes da vida!
sábado, 10 de abril de 2010
Impetuoso
Impetuoso, o teu corpo é como um rio
onde o meu se perde.
Se escuto, só oiço o teu rumor.
De mim, nem o sinal mais breve.
Imagem dos gestos que tracei,
irrompe puro e completo.
Por isso, rio foi o nome que lhe dei.
E nele o céu fica mais perto.
Eugénio de Andrade
segunda-feira, 5 de abril de 2010
Navego mar adentro
Fonte da imagem: blogue Asa que não voa
Icei as velas
no mar brando e sereno…
quando se levantou uma brisa agreste
vinda das terras exóticas de Leste!
Uma cantiga morna e dormente
embalou-me o corpo ao relento,
seguro na madeira quente do leme.
Até que um uivo mais forte e estridente
estremeceu o cabelo solto,
ondulando livre pelos ombros,
ao ritmo deste pedaço de água
que me banha a proa
de espuma e sal queimado.
Estendo-me nua
sob uma tela de azuis pálidos,
raiados de violeta e amarelo-torrado.
A tua mão transparente
desliza-me pelo pescoço fino
e detém-se na curva dos seios fartos.
Respiro-te o ar adocicado
mordendo-me o ventre febril…
Sopras mais forte
e transformas-te em vento do Sul
enquanto rebento numa onda de espuma prateada…
terça-feira, 30 de março de 2010
domingo, 7 de março de 2010
Véu líquido
Fonte da imagem: blogue As musas inspiradoras
Véu negro de cinza…
Polvilhas-me o corpo queimado
e os olhos em carne viva.
Deslizas com os teus dedos afiados
sobre a pele cravada de lágrimas,
inflamando a boca salgada!
És a sombra invisível
que respira o odor do suspiro,
reconheces o sabor amargo da saliva
e decifras o rosto sombrio
no parapeito do destino.
És de uma transparência livre…
Corres encosta abaixo,
no leito do rio tempo,
recortas montanhas rochosas
e levas no teu peito a cor do vento…
Véu negro de cinza…
Polvilhas-me o corpo queimado
e os olhos em carne viva.
Deslizas com os teus dedos afiados
sobre a pele cravada de lágrimas,
inflamando a boca salgada!
És a sombra invisível
que respira o odor do suspiro,
reconheces o sabor amargo da saliva
e decifras o rosto sombrio
no parapeito do destino.
És de uma transparência livre…
Corres encosta abaixo,
no leito do rio tempo,
recortas montanhas rochosas
e levas no teu peito a cor do vento…
sábado, 6 de março de 2010
Me entrego a tus brazos
Me acerco al agua
Bebiendo tu beso
La luz de tu cara
La luz de tu cuerpo
Bebiendo tu beso
La luz de tu cara
La luz de tu cuerpo
(...)
(...)
Con toda palabra
Con toda sonrisa
Con toda mirada
Con toda caricia
Me acerco al fuego
Que todo lo quema
La luz de tu cara
La luz de tu cuerpo
Es ruego el quererte
Es canto de mudo
Mirada de ciego
Secreto desnudo
Me entrego a tus brazos
Con miedo y con calma
Y un ruego en la boca
Y un ruego en el alma
Con toda sonrisa
Con toda mirada
Con toda caricia
Me acerco al fuego
Que todo lo quema
La luz de tu cara
La luz de tu cuerpo
Es ruego el quererte
Es canto de mudo
Mirada de ciego
Secreto desnudo
Me entrego a tus brazos
Con miedo y con calma
Y un ruego en la boca
Y un ruego en el alma
"Con toda palabra" - Lhasa de Sela
sexta-feira, 19 de fevereiro de 2010
As Palavras
in Gota a Gota por Ana Bastos
Espectacular interpretação do poema "As Palavras" de Eugénio de Andrade!
sábado, 6 de fevereiro de 2010
Mistério de Afrodite
"É um segredo sob o signo do Escorpião"
"Obrigado" (2005) é o primeiro disco que Teresa Salgueiro edita em nome próprio. Não é um disco a solo, mas um trabalho de duetos, uma compilação de temas que foram gravados ao longo de muitos anos.
Junta 14 colaborações de Teresa Salgueiro com músicos de renome nacional e internacional, de José Carreras a Maria João, de Caetano Veloso a António Chainho. As canções agora reunidas foram gravadas entre 1990 e 2005. Teresa Salgueiro diz: “Sou o elo de ligação entre todas elas, e fico contente por poder juntar num disco só artistas de áreas tão diferentes... Os artistas estão sempre a construir em comum uma mesma coisa, a defender uma ideia que é a música. Este é um disco sem fronteiras”.
quinta-feira, 4 de fevereiro de 2010
Utopia
Fonte da imagem
Atiro as cinzas,
Atiro as cinzas,
semeio tempestades de luz
e mergulho no profundo azul
que me tinge a pele rubra!
Lambo as feridas inflamadas…
Cristais de gelo estalam-me na garganta
e grito em soluços,
procurando-te o dorso forte e seguro.
Agarro-te nas rédeas aladas
e voamos em direcção às estrelas,
onde a utopia não é sonho mas realidade.
quarta-feira, 27 de janeiro de 2010
domingo, 24 de janeiro de 2010
E as nossas Ondas?
Fonte da imagem
"As Ondas" é das obras mais profundas e intensas de Virginia Woolf, ícone da literatura britânica que, aos 59 anos de idade, decidiu pôr termo à vida.
Neste incrível teste aos limites do ser, Virginia explora fantasias, sonhos, frustrações e tristezas de seis personagens, acompanhando os seus percursos, da infância à velhice. Três rapazes: Bernard, a onda extrovertida e comunicadora mas superficial; Louis, de uma esplêndida rigidez e racionalidade, vive fechado sobre si próprio; e Neville, um poeta solitário que esconde a homossexualidade. Três raparigas: Susan, a onda de olhos verdes que habita o campo e sustenta a família; em Jinny a sensualidade e a beleza dançam no vestido; e Rhoda, mergulhada na melancolia das chuvas salgadas.
Percival é a sétima onda. Escutamos a sua rebentação no mar revolto, conhecemos a ousadia com que cavalga rochedos e penetra em grutas desconhecidas através de outros murmúrios e vestígios de espuma abandonados na areia. A sua coragem é sublime, a sua morte dramática e corrosiva... a finitude humana desaba sobre os seis corpos que se julgavam imortais!
Virginia conduz o leitor numa aventura de vários rostos, sempre através de monólogos interiores. Questiona o sentido da vida, da existência, exibe sem pudor os nossos medos e fraquezas. Nós, simples ondas que habitam um oceano imenso que dita as suas próprias leis, de compreensão difusa.
Seis ondas que refluem nas paredes internas de Woolf. E quantas habitam o nosso mar interno?
Foi esta esquizofrenia que levou a escritora à loucura e ao suicídio, a 28 de Março de 1941.
Virginia Woolf por Vasco
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