quinta-feira, 16 de junho de 2011

O voo mais livre

O voo mais livre
é o aroma fresco na boca
ainda húmida
desse doce que se derrete na língua…
Sabe a morango e amora,
crava-se na garganta,
tatua-me com espinhos…

O voo mais livre
é desprender-me deste corpo pesado,
das olheiras fundas
que me atiram pedras
e pisam o sal das lágrimas,
agora mais ácidas e corrosivas.

O voo mais livre
é perder esta vida inútil
e ganhar outra mais leve e clara,
como essas pétalas que esvoaçam
a cada vez que suspiro…

Voo no dorso dessa nuvem cinzenta,
pronta a disparar a raiva líquida
sobre a terra quente de trovão!

Sigo-te por entre farrapos de luz e céu azul,
tintas multicores numa tela de seda…
Leva-me contigo… nas asas do vento…
… até me esquecer… que um dia existi…

quarta-feira, 1 de junho de 2011

Tempo



















A cadeira baloiça como o sino mudo,
sem badaladas.
O corpo range nas dobradiças gastas…
Madeira seca, desbotada
cobre-me a pele ainda jovem…


Estico as pernas para a frente,
agora dobro novamente,
mais depressa, uma outra vez…
as sombras esvoaçam por entre os cortinados,
saltam em silêncio pelo soalho antigo,
deitam-se no sofá, nas almofadas
e deslizam para o chão
como aguarela preta que escorre da tela…

Encosto a cabeça para trás,
fitando o teto vazio,
a dobra de carvalho cravando
a sua rigidez no meu pescoço…
Lá em cima desmaiou a claridade do dia
e o branco torna-se mais sujo…

O baloiço dos ponteiros do relógio
move-se ao ritmo do segundo…
Tenho a alma presa nesta roda gigante,
nada mais somos que tempo
minutos, horas!

terça-feira, 24 de maio de 2011

Utopia

Neste caderno de linhas,
viajo sobre colinas desertas,
toco as amendoeiras despidas
e as rosas murchas…

O pé descalço sobre a terra quente e escura
e um lenço florido
carregando o sol alto
enquanto bebe o suor
que me escorre do couro cabeludo.

Desenho algumas sombras frescas,
que me dão guarida,
cantam a música das nascentes…

Na pele, trago as insígnias da utopia:
loucura ou filosofia?
Não importa a palavra mas o sentido
e o meu tem asas de condor,
um céu azul com arco-íris
e ninhos de andorinhas.

terça-feira, 17 de maio de 2011

Óculos

De vidro ou plástico?
Alguns coloridos, outros transparentes
como se não existissem,
mas o brilho do reflexo
trai a ilusão do que aparenta ser verdadeiro.

Óculos de disfarce, de Carnaval
ou de quem se esconde nas lentes escuras
quando ainda nem raiou o Sol.

Vejo-te por detrás destes dois oráculos translúcidos...
… pareces perfeito, simpático, meigo...
Mas como materializar estas vestes
que se despem de visão e ganham vida cá dentro?
Onde não há lentes nem armação?

De noite a vigília pesa-me nas pálpebras.
Mesmo fechadas, continuo a ver-te,
observo-te nesta imensa escuridão,
traço-te os contornos do rosto
desenho-te essa barba por desfazer
humedeço-te os lábios secos
com a minha sede líquida
por te ter...


Uma espanhola que se dá pelo nome de "Russian Red" canta "Kiss my Elbow" do álbum "I love your Glasses"

quarta-feira, 20 de abril de 2011

Fujo... de quê?

Calco a terra batida que a chuva vai molhando.
Escorrem-me as cores da vida inexistente
como o arco-íris que rasga o céu cinzento,
num êxtase arrepiante e fugaz,
como este sorriso que me atiras no ar…
Tento bebê-lo, provar-lhe o veludo e o calor
da pele quente, nua,
brilhante, húmida.

Caminho descalça, livre…
lama, água fria, vento
e o cabelo esvoaça rebelde em fúria!
Estendo os braços e crescem-me penas largas,
acelero, marcas o compasso…

Fujo… de quê? Para onde?
A que mundo pertenço?
Não me sinto quem sou,
não possuo o que tenho.
Mas para quê ser dono
do que nunca será teu mas de todos?

A luz dissipa-se em farrapos violeta,
nesse manto que me limita o olhar,
feito de manchas azuis que vão escurecendo…

Respiro fundo…
A maresia devolve-me a alma
em espuma branca,
num embalo doce e sereno…

quinta-feira, 7 de abril de 2011

Pesam-me os dias
















Pesam-me os dias
como nuvens carregadas de chuva
ou bacias de roupa suja,
que lavo na água do rio
com o esfregão contra o granito…

Pesam-me as horas
sob um sol asfixiante e seco
que me queima o rosto e os braços finos…

E os minutos marcam o passo contínuo,
irritantemente minúsculo,
como o zumbido de um mosquito
que desenha circuitos no espaço vazio…

Pesam-me os olhos negros,
pregados na dobra da minha saia de flores
e de folhos coloridos
que o vento adora beijar.
Quando sopra mais atrevido,
levanta um aroma doce de rosas e rosmaninho.

A noite liberta-me!
Puxa-me para junto das estrelas,
para o teu regaço,
é onde quero ficar até adormecer…

quarta-feira, 6 de abril de 2011

Agora sou terra


















E quando acordei já não era vento...
O meu véu transparente ganhou um corpo quente,
subi a tua encosta íngreme
para me espraiar no horizonte
respirei fundo e os aromas salgado do mar
pintaram-me duas lágrimas no rosto!

Quero voar, mas agora sou terra
com bosques e florestas para alimentar,
crescem-me raízes neste continente triste
feito de carne e sangue e ossos e pele.

Perdi a intangênca de apenas ser,
agora existo dentro dos limites da vida,
mas a minha alma guarda a brisa da inocência...
basta abrir a pequena caixa secreta
para abraçar o azul intenso que guardo no olhar!