terça-feira, 2 de setembro de 2014

Aranha do mar














Em lânguidas ondas prateadas de espuma
beijas-me o corpo nu deitado na areia húmida,
sob um manto de estrelas sedentas de luz…

Saboreio-te esse licor salgado
enquanto me sulcas o ventre
em jatos de água fresca e transparente.
Prendo-te entre as coxas nuas
mas o teu corpo liquefaz-se no meu
penetrando-me os poros da pele.

Evaporas-te e ganhas a forma de uma nuvem,
sobrevoas-me o plexo revolto,
observando cada movimento ondulante,
tecendo uma teia lasciva e sedutora.

É quando uma brisa mais fresca
te materializa em chuva sobre o meu corpo:
gotas de néctar adocicado
alimentam-me os seios hirtos e ofegantes,
escorres-me pela curva da anca…
Envolvo-te na minha teia dourada,
deixas-te prender inebriado de prazer
e a seguir degolo-te vorazmente…

quarta-feira, 14 de maio de 2014

Pequenina outra vez!















Estendo os braços pálidos
no vento frio que cobre a noite…
Deslizo entre nenúfares transparentes
para o teu leito de estrelas e luar
e baloiço no teu colo enquanto me acaricias a tez dourada…

Finalmente consigo libertar-me deste vestido pesado
que se arrasta no chão como um arado…
E levito entre sonhos de mar e alecrim,
entre a frescura salgada da rebentação marinha
e o perfume adocicado do rosmaninho numa clareira ao entardecer…

Quero ser pequenina outra vez!



quarta-feira, 7 de maio de 2014

Poesia















Fujo da palavra escrita,
que materializa esta dor intangível
em sombras negras e obscuras,
que uivam asperamente no meu ouvido…
Fujo desta folha imaculadamente branca,
com receio de a tingir com os meus fantasmas
e os demónios que se apoderaram do meu corpo!

Fujo….
….mas sinto falta de ti…
de te ler… de te recitar…
Procuro-te uma e outra vez cá dentro
mas não te encontro...

Chamo por ti...
               ... sedenta do teu licor...
do alimento que me mantém viva e fértil!
Só tu me poderás cortar as algemas de espinhos
que me aprisionam dentro desta gruta infernal!

segunda-feira, 10 de março de 2014

Mergulho




















As páginas voltaram ao cal de outrora,
à candura luminosa da ausência
que dispara em flecha sobre o olhar luzidio,
plantado neste rosto sombrio
de lábios trémulos e roxos…

As raízes secaram neste plexo estéril e desidratado…
A seiva que corria feroz cá dentro
esvaiu-se numa poça de lágrimas ácidas
que me corroem o ventre ensanguentado…

Nesse espelho de água barrenta,
flutua o meu corpo dormente e gelado…
Não lhe sinto qualquer batimento cardíaco,
apenas o soluçar de mais uma lágrima perdida,
único elemento que conseguiu escapar com vida…