quinta-feira, 17 de março de 2011

És Eterna

Pó, luz, água…
O marulhar serpenteando-me na pele nua,
pequenos grãos deslizando nesta nudez de lua
enquanto viajo na linha ténue que me separa de ti…

Um dia no teu colo, em tua casa.
Anos de ternura guardados dentro de mim.
Memórias que se renovam a cada lágrima
ganham vida no olhar turvo
com que desenho figuras imaginárias
ilusões feitas de algodão e açúcar.

E mesmo quando não estava lá,
tinha-te cá dentro…
Vives no meu jardim de rosas e tulipas,
por isso és eterna.
Apanhas a brisa da primavera
e voas com as andorinhas,
por fim, regressas com as estrelas
e formas uma nova constelação.

...

É para ti este poema avó. 
Partiste, mas continuas viva cá dentro!


quinta-feira, 10 de março de 2011

Existência



















Vejo-te nua
sob a luz quebradiça
de um candeeiro de rua.
Toco-lhe a ferrugem de 27 anos,
a minha sombra difusa
estremece com o vento fraco
que sussurra a canção grave do mar.

Despida do fato social
com que te pintas de homem ou mulher,
ganhas outras cores
como os frutos de um pomar maduro
ou os corais do fundo do oceano.

És areia, terra e lua,
fonte de água pura e transparente,
rio que me contorna a cintura
e beija a foz do meu corpo.

terça-feira, 1 de março de 2011

Grito mudo
















A garganta engoliu-me o grito mudo
que irrompia da goela como saliva ácida…
três gotas estalam-me nos olhos cerrados
e deslizam quentes até se diluírem nos lábios tensos…
Sinto-lhes o sabor salgado!

A tua mão calma limpa-me o rosto molhado,
suaviza-me as linhas soturnas e agrestes
que vigiam a lua e as estrelas
até no horizonte despontar o violeta claro
com que pinto o crepúsculo do amanhecer.

sexta-feira, 11 de fevereiro de 2011

Terra dura














Cavamos a terra dura e seca,
plantamos calos rijos de um lenhador velho…
Sinto-me escrava de pele suja.
Pés nus sobre a noite pálida,
solitária…
Apenas o silêncio
sentado na montanha gelada!

Descobrimos o inferno do meio-dia,
sob os chapéus de palha clara
e a compaixão do crepúsculo violeta
que traz a brisa fresca
e um manto fofo de nuvens negras.

Bebo o orvalho matinal das folhas tenras
e alimento-me da seiva do teu corpo.
Cantam-me os grilos nocturnos
a valsa da insónia
enquanto as cigarras se recolhem
e os pirilampos espreitam curiosos
Uma sombra que respira deitada
nas margens do rio lágrima.

sexta-feira, 4 de fevereiro de 2011

Harpa virgem



















Toco a harpa virgem
de cordas finas, esticadas
no meu corpo de pele e carne…

Emito os agudos cristalinos do gelo
e os graves que habitam os trópicos…
A partitura despida de notas,
pautas vazias que deambulam ao meu compasso
e vão escrevendo a melodia febril
que me transpira dos poros abertos…

Veias dilatadas, camisa desabotoada,
abro as portadas rijas de madeira antiga:
entras leve e fresco vindo do orvalho da manhã,
trazes jasmim e rosas no teu dorso invisível…

Estremeço com esse toque de veludo,
levas-me num tufão brando de pétalas e folhas
e sopras-me o segredo da vida!

quinta-feira, 27 de janeiro de 2011

Reaprendo a voar















Escrevo e rasgo
cada letra de carne e sangue,
cada sinal que exclama turvo
na densidade do branco,
opaco e difuso,
no olhar molhado
que desliza pelos dedos magros,
onde repouso o rosto cansado…

Cravo as unhas na pele dormente…
Estou viva!
Procuro a luz mas habito a penumbra…
Nesta caverna solitária feita de musgo e granito,
grito bem alto e um eco triste
devolve-me este suplício!

Agarro-te os ramos fortes de carvalho
e subo até ao cimo deste poço…
Reaprendo a voar no dorso do vento
e juntos seguimos viagem
até onde o céu termina e começa o mar.

quinta-feira, 6 de janeiro de 2011

Pulsar da Vida!

A vertigem de me sentir viva,
correndo numa cascata de água doce,
livre, fresca, translúcida,
boiando nos glaciares cristalinos,
percorrendo o calor do deserto
numa extensão infinita de colinas arenosas,
evaporando-me no arfar quente dos felinos,
sorvendo o pólen das flores,
criando ninhos nas copas das árvores de folhas verdes e tenras,
abraçando-me a ti, oceano, viveiro deste Planeta,
para o mergulho triunfante das Orcas...


Quem somos nós neste Universo? Apenas mais um ser vivo que deve respeitar a Grande Casa onde todos habitamos: a Terra!