domingo, 20 de maio de 2012

Entre dunas














Em cada poro respiro-te o perfume marinho
que ondula pela tua encosta de pedra,
mas polida pelas mãos de espuma branca
desse corpo salgado e imenso
sob a claridade do dia
e a vigília prateada da lua...

Ergues-te entre as dunas de areia macia,
sorvendo-me o licor de mel
que se destila em cada uma das minhas concavidades
de veludo e seda...

E quando o vento refresca esse sol quente de Primavera
começa a chover sobre a nudez que nos tinge a pele...
Ardemos sob esta água fria!
Enlaço-te uma e outra vez entre a foz do meu rio
até me alimentares de sémen e saliva!

domingo, 15 de abril de 2012

Regresso ao mar














Nesta lama escura,
mergulho a pele cansada
que me veste a alma
como se fosse um fantasma,
de olhos turvos, cerrados,
ombros descaídos,
carregando o peso invisível da gravidade,
e as pernas trémulas, ajoelhando-se,
a cada passo mais lento e fúnebre,
como se não aguentasse mais a respiração da vida...

Mas antes que a terra líquida me engula a cintura e o peito,
agarras-me as mãos e salto para o teu dorso fresco de maresia...
Vens do mar, das ondas azuis de espuma branca,
da areia fina e clara, do horizonte torrado de violeta...
Assim que regresso ao meu castelo de água volto a ser sereia.

domingo, 8 de abril de 2012

A denúncia de Günter Grass

O nobel a literatura Günter Grass quebrou o silêncio e denunciou o potencial nuclear de Israel. Agora é considerado "persona non grata" pelo povo judaico e está impedido de entrar naquele país.


















O QUE HÁ A DIZER

por Günter Grass [*]



Porque guardo silêncio, há demasiado tempo,
sobre o que é manifesto
e se utilizava em jogos de guerra
em que no fim, nós sobreviventes,
acabamos como meras notas de rodapé.

É o suposto direito a um ataque preventivo,
que poderá exterminar o povo iraniano,
conduzido ao júbilo
e organizado por um fanfarrão,
porque na sua jurisdição se suspeita
do fabrico de uma bomba atómica.


Mas por que me proibiram de falar
sobre esse outro país [Israel] onde há anos
– ainda que mantido em segredo – se dispõe de um crescente potencial nuclear,
que não está sujeito a qualquer controlo,
já que é inacessível a qualquer inspecção?


O silêncio geral sobre esse facto,
a que se sujeitou o meu próprio silêncio,
sinto-o como uma gravosa mentira
e coacção que ameaça castigar
quando não é respeitada:
“anti-semitismo” se chama a condenação.


Agora, contudo, porque o meu país,
acusado uma e outra vez, rotineiramente,
de crimes muito próprios,
sem quaisquer precedentes,
vai entregar a Israel outro submarino
cuja especialidade é dirigir ogivas aniquiladoras
para onde não ficou provada
a existência de uma única bomba,
se bem que se queira instituir o medo como prova… digo o que há a dizer.


Por que me calei até agora?
Porque acreditava que a minha origem,
marcada por um estigma inapagável,
me impedia de atribuir esse facto, como evidente,
ao país de Israel, ao qual estou unido
e quero continuar a estar.


Por que motivo só agora digo,
já velho e com a minha última tinta,
que Israel, potência nuclear, coloca em perigo
uma paz mundial já de si frágil?


Porque há que dizer
o que amanhã poderá ser demasiado tarde,
e porque – já suficientemente incriminados como alemães –
poderíamos ser cúmplices de um crime
que é previsível,
pelo que a nossa quota-parte de culpa
não poderia extinguir-se
com nenhuma das desculpas habituais.


Admito-o: não vou continuar a calar-me
porque estou farto
da hipocrisia do Ocidente;
é de esperar, além disso,
que muitos se libertem do silêncio,
exijam ao causante desse perigo visível
que renuncie ao uso da força
e insistam também para que os governos
de ambos os países permitam
o controlo permanente e sem entraves,
por parte de uma instância internacional,
do potencial nuclear israelense
e das instalações nucleares iranianas.


Só assim poderemos ajudar todos,
israelenses e palestinos,
mas também todos os seres humanos
que nessa região ocupada pela demência
vivem em conflito lado a lado,
odiando-se mutuamente,
e decididamente ajudar-nos também.



[*] Prémio Nobel de Literatura, autor de O tambor e A ratazana.


O original foi publicado no diário Süddeutsche Zeitung , assim como em The New York Times e no jornal italiano La Reppublica. A tradução para português encontra-se em Jornal de Negócios.


Este poema encontra-se em http://resistir.info

sábado, 25 de fevereiro de 2012

Borboleta



















O perfume ácido da laranja
crava-se-me na pele rugosa...
os maxilares tensos fazem ranger os dentes,
trinco uma semente mais agreste
e o veneno destila-se na língua,
envolvendo-me a saliva e as papilas gustativas!
Lá fora o vento sopra quente,
batendo no vidro fosco que me circunda o rosto...
Ramos despidos, secos,
partem a cada rajada mais forte
e a minha carne estremece
entre os dentes da tua boca...
São brancos, alinhados,
cegam-me os olhos encharcados...
mas Neptuno emerge do mar revolto
e salva-me das tuas mandíbulas de sangue,
libertando-me... sou novamente borboleta e consigo voar!

quinta-feira, 9 de fevereiro de 2012

Lua de fogo sem palavras















Perdi as palavras e as que restam tropeçam-me na língua
onde me crescem silvas e musgo...
Procuro-as no baú secreto das memórias,
mas desmaio nesta lividez
que me sustenta a alma...

Fujo do vento gelado que me desabotoa a blusa,
os mamilos endurecem no arrepio que me sobe pela espinha,
mas por dentro as chamas consomem-me de febre,
asfixiam-me neste suor frio e doentio...

Corro estrada fora como se voasse nesse sopro de Leste
que estremece as águas do rio e os campos de trigo,
toco as chaminés e as nuvens
e lá em cima a lua de fogo que me enlouquece!

domingo, 8 de janeiro de 2012

Indizível















Visto o chão quente da marcha dura
do vento pesado que vos empurra
para o uivo sombrio do anoitecer...
Seguro a caminhada dorida e monocórdica
deste fluxo de sangue e nervos,
elevando os corpos salgados
pela montanha acidentada... granítica,
de onde escorre uma névoa ao longo dos cabelos de chuva!

E neste movimento perpétuo de marés,
estanco o tempo e o refluxo do amanhã,
como se no presente coubessem o sonho e o indizível!

segunda-feira, 26 de dezembro de 2011

Último sopro


Como se me arrancassem este último sopro
que me aquece nas noites frias de Inverno…
Hálito quente que se esvai em fumaça pálida
por entre as nuvens negras da alma
e o gelo cristalizado em estalactites de lágrimas…
Cinjo-me ao teu corpo de pedra e água,
nascente que germina quando o deserto ameaça
espraiar-se até aonde a vista alcança o oceano
e secar o mais ínfimo vestígio de vida humana!