quarta-feira, 10 de julho de 2013

Diário













Agarro-te esse traço curvo com que finalizas o meu nome,
a tinta escura que desliza da caneta
tinge-me a bainha negra
que se desprende do vestido de cetim violeta...

Reconheço-te esse contorno mais forte
que sublinha vogais abertas, sons exclamativos
e a sombra mais frágil e trémula retida nas entrelinhas,
quando hesitas, escreves e rabiscas traços inseguros,
que se desprendem e esvoaçam pelas páginas do teu livro...

Rasgo uma e outra folha completamente vazias
pálidas, despidas...
sem uma linha ou um risco indevido...
É uma ausência de ser, uma apatia profunda
que se abate sobre os meus olhos embaciados
como se o amanhã não pudesse nascer,
qual rebento de planta que não consegue desabrochar e dar flor,
como se o passado se desfizesse entre os dedos de uma criança
deslizando em grãos de areia fina e branca...

quarta-feira, 3 de julho de 2013

Poema inacabado















Descanso o meu reflexo nesse espelho de luz salgada
que navega entre as duas margens de um corpo sem destino...
São os reinos do sol nascente e da lua cheia
que marcam a valsa das marés e dos ventos!
Bebo-te o orvalho da manhã e a espuma branca ao entardecer,
enquanto desbravas este caminho subterrâneo de água doce 
para desabrochares na boca quente que te faz renascer uma e outra vez...!

Mas esta sede de mar que estremece
cada nervo do meu ventre, cada poro da minha pele
faz-me planar sobre ti como uma águia insaciável pronta a caçar a sua presa...!

quarta-feira, 24 de abril de 2013

Ser quem não sou


Na voracidade dos dias, procuro um sinal de eternidade,
um vestígio que refute a racionalidade do que é efémero
e desvenda uma lua cheia de impossíveis por realizar...

Nestes ínfimos grãos que deslizam invisíveis
por entre os dedos esguios,
procuro-me... procuro-te...
esse pedaço que se esvai instantaneamente
e me surpreende num regresso imprevisível,
sempre insuficiente...
É como as estrelas que brilham
mas não conseguem iluminar
ou os pirilampos tímidos
diante de um sol intenso de primavera!
É como aquele candeeiro de pé alto e imponente
mas gasto pela erosão dos invernos
ou como o vento demasiado fresco em dezembro
ou o bafo quente de um agosto vagaroso
que em vez de caminhar, rasteja,
escavando túneis debaixo da terra húmida...

quarta-feira, 20 de fevereiro de 2013

Ser quem sou

Ser quem sou, 
desejar o que tenho,
gostar do que vejo, do perfume da minha flor,
das raízes que a alimentam e da chuva que a hidrata...
... das palavras que me são ditas,
dos cumprimentos banais com que nos tocamos,
desconhecidos mas cúmplices,
porque todos nascemos do corpo de uma mulher,
fecundada pela virilidade de um homem...
Querer guardar as memórias que me escorrem das mãos em pequenos grãos...
Sentir falta do que me define e por vezes se desprende
como um pequeno ramo mais débil caindo de uma árvore frondosa...
Acordar debaixo dessa copa verdejante
e abraçar-me ao lençol macio em que me deito todas as noites...
Já o dia se vestiu de negro, é um tecido opaco mas brilhante...
Por uma luz semicircular desliza até ao meu rosto,
sinto-lhe a mão aveludada enxaguando-me as lágrimas quentes...
Este marejar que me ofusca e tortura 
a cada passo febril que calca a terra turva e fria...
Ouço-te... mas quem?
Se és a voz que me vibra na laringe!
Habitas-me!



sexta-feira, 15 de fevereiro de 2013

Fluxo contínuo




















Torrente febril que derrete esta colina de neve,
num rastro quente de vapor que flutua,
mantém-me cativa nesta gruta de pedras vulcânicas…
enquanto me aqueces a alma sombria e a pele salgada…

Fui sereia do mar mas quero ser tua,
da nascente translúcida até à foz de cor púrpura...
Serei a ninfa de água doce que cuida do teu leito morno
e semeia cravos e tulipas nas margens fofas que te aconchegam!

És o meu par nesta dança serena que marca o compasso da brisa de leste...
Os teus lábios deslizam pelo contorno já ereto dos mamilos…
... são cerejas na tua boca...
... botões de rosa que te florescem nos dedos…
Temperas-me com a tua saliva agridoce e quente
até mergulhares na lava que brota do meu ventre!

segunda-feira, 28 de janeiro de 2013

O segredo


Desenho-te curvas, reentrâncias húmidas,
nessa tela transparente onde me revejo nua…
São tuas estas mãos que te possuem
e este corpo inteiro que te circunda
como a brisa primaveril despertando-te
do sono profundo de Inverno…

Bebo-te a seiva que me escorre fluida e morna
em cada linha da pele invisível que me veste a alma.
Conheço-te o sabor a chuva e a terra queimada,
viajei nos teus movimentos perpétuos, curvilíneos,
bailarina que ama o sol mas seduz a lua!

Numa bipolaridade secreta acaricias-me o rosto cansado
enquanto deslizo para o teu colo sereno e verdejante!



sábado, 19 de janeiro de 2013

Menina do Sol



















Traças-me o corpo com essa invisível capa de cetim,
abraçando-me num sopro fresco de inverno pálido
que descreve telhados de neve e ramos despidos.
Mas o teu hálito escalda-me o ventre em labaredas,
libertando esse vapor quente e macio que derrete 
as pequenas estalactites que nascem em cada braço de ferro:
o portão do parque ou o arco sobre o caminho prateado,
noutra época verde de folhas de plátanos imponentes
que abrigavam rolas e esquilos, rebentos de morango e alecrim.

Procuro as horas, os dias e os meses, ininterruptamente
como se os devorasse à velocidade dos meus passos nus,
que correm sobre o asfalto de gelo escorregadio...
Mas o minuto demora-se nas quedas que me golpeiam os joelhos e as mãos...
O rosto aninha-se-me nos braços cruzados ao peito quase dormente,
enquanto imagino o regresso dos campos verdejantes 
com os roseirais e as laranjeiras selvagens
saciando-se junto da nascente de água morna e cristalina
que despertara da estação mais fria do ano.