quarta-feira, 24 de abril de 2013

Ser quem não sou


Na voracidade dos dias, procuro um sinal de eternidade,
um vestígio que refute a racionalidade do que é efémero
e desvenda uma lua cheia de impossíveis por realizar...

Nestes ínfimos grãos que deslizam invisíveis
por entre os dedos esguios,
procuro-me... procuro-te...
esse pedaço que se esvai instantaneamente
e me surpreende num regresso imprevisível,
sempre insuficiente...
É como as estrelas que brilham
mas não conseguem iluminar
ou os pirilampos tímidos
diante de um sol intenso de primavera!
É como aquele candeeiro de pé alto e imponente
mas gasto pela erosão dos invernos
ou como o vento demasiado fresco em dezembro
ou o bafo quente de um agosto vagaroso
que em vez de caminhar, rasteja,
escavando túneis debaixo da terra húmida...

quarta-feira, 20 de fevereiro de 2013

Ser quem sou

Ser quem sou, 
desejar o que tenho,
gostar do que vejo, do perfume da minha flor,
das raízes que a alimentam e da chuva que a hidrata...
... das palavras que me são ditas,
dos cumprimentos banais com que nos tocamos,
desconhecidos mas cúmplices,
porque todos nascemos do corpo de uma mulher,
fecundada pela virilidade de um homem...
Querer guardar as memórias que me escorrem das mãos em pequenos grãos...
Sentir falta do que me define e por vezes se desprende
como um pequeno ramo mais débil caindo de uma árvore frondosa...
Acordar debaixo dessa copa verdejante
e abraçar-me ao lençol macio em que me deito todas as noites...
Já o dia se vestiu de negro, é um tecido opaco mas brilhante...
Por uma luz semicircular desliza até ao meu rosto,
sinto-lhe a mão aveludada enxaguando-me as lágrimas quentes...
Este marejar que me ofusca e tortura 
a cada passo febril que calca a terra turva e fria...
Ouço-te... mas quem?
Se és a voz que me vibra na laringe!
Habitas-me!



sexta-feira, 15 de fevereiro de 2013

Fluxo contínuo




















Torrente febril que derrete esta colina de neve,
num rastro quente de vapor que flutua,
mantém-me cativa nesta gruta de pedras vulcânicas…
enquanto me aqueces a alma sombria e a pele salgada…

Fui sereia do mar mas quero ser tua,
da nascente translúcida até à foz de cor púrpura...
Serei a ninfa de água doce que cuida do teu leito morno
e semeia cravos e tulipas nas margens fofas que te aconchegam!

És o meu par nesta dança serena que marca o compasso da brisa de leste...
Os teus lábios deslizam pelo contorno já ereto dos mamilos…
... são cerejas na tua boca...
... botões de rosa que te florescem nos dedos…
Temperas-me com a tua saliva agridoce e quente
até mergulhares na lava que brota do meu ventre!

segunda-feira, 28 de janeiro de 2013

O segredo


Desenho-te curvas, reentrâncias húmidas,
nessa tela transparente onde me revejo nua…
São tuas estas mãos que te possuem
e este corpo inteiro que te circunda
como a brisa primaveril despertando-te
do sono profundo de Inverno…

Bebo-te a seiva que me escorre fluida e morna
em cada linha da pele invisível que me veste a alma.
Conheço-te o sabor a chuva e a terra queimada,
viajei nos teus movimentos perpétuos, curvilíneos,
bailarina que ama o sol mas seduz a lua!

Numa bipolaridade secreta acaricias-me o rosto cansado
enquanto deslizo para o teu colo sereno e verdejante!



sábado, 19 de janeiro de 2013

Menina do Sol



















Traças-me o corpo com essa invisível capa de cetim,
abraçando-me num sopro fresco de inverno pálido
que descreve telhados de neve e ramos despidos.
Mas o teu hálito escalda-me o ventre em labaredas,
libertando esse vapor quente e macio que derrete 
as pequenas estalactites que nascem em cada braço de ferro:
o portão do parque ou o arco sobre o caminho prateado,
noutra época verde de folhas de plátanos imponentes
que abrigavam rolas e esquilos, rebentos de morango e alecrim.

Procuro as horas, os dias e os meses, ininterruptamente
como se os devorasse à velocidade dos meus passos nus,
que correm sobre o asfalto de gelo escorregadio...
Mas o minuto demora-se nas quedas que me golpeiam os joelhos e as mãos...
O rosto aninha-se-me nos braços cruzados ao peito quase dormente,
enquanto imagino o regresso dos campos verdejantes 
com os roseirais e as laranjeiras selvagens
saciando-se junto da nascente de água morna e cristalina
que despertara da estação mais fria do ano.

quarta-feira, 5 de dezembro de 2012

Morcego
















Sucumbo assim que escurece 
e o violeta esmorece 
na penumbra de um crepúsculo que desistiu de ser
e se abandona à opacidade de um mar negro, espesso, impenetrável...

É quando regresso ao meu estado original...
Refugio-me num dos ramos daquele plátano velho,
sem folhas, mas forte e imponente,
capaz de aguentar a fúria repentina
de uma tempestade de vento mais violenta...
As raízes colaram-se ao asfalto,
às placas que seguram o chão que pisas
e alimentam a lava subterrânea...
É a árvore da vida que me suporta o peso mortal!

A pele despiu-se da luz aparente
que me aquecia a alma
e retornou à toca de onde brotou doente...
Cega, escura,
sigo-te pelo ruído dos passos,
sinto-te a respiração mais ofegante,
rodopio-te sem me conseguires ver...

É tudo tão fugaz, efémero...
Ao mais leve pestanejar desapareço,
mas tatuei-te o corpo com as minhas impressões digitais,
com a minha saliva, com o fogo que me lavra o ventre...
Despertas a represa de água quente
que ecoa na minha fonte,
libertando-me desta clausura
que me sufoca em estilhaços de vidro!

domingo, 4 de novembro de 2012

Foz do rio Ser



















Autor: Raul Nunes


No meu colo embalo tantas lágrimas
quanto as que correm naquele rio de águas mornas mas revoltas,
naquele leito doce mas de pedras afiadas
que arranham o pé mais inocente que a calca...
São espinhos como os das rosas de pétalas macias
ou como os dos catos e ouriços que temem o desconhecido...

Com os braços nas duas margens de lama e ervas daninhas,
baloiço esse sal que te escorre da alma
como cristais que se liquefazem em gotas de luz
e jorram uma chuva de açúcar sobre a minha pele salgada...
Recebo-te por fim com os lábios rubros já em flor
ondulas suavemente por entre montanhas de pinheiros e granito
até te ergueres decidido à boca de um azul celeste prestes a escurecer...
... estala o primeiro trovão... o vento canta mais forte... intensifica os graves...
É quando te entregas a esta foz que te dará um novo ser!