sexta-feira, 15 de fevereiro de 2013

Fluxo contínuo




















Torrente febril que derrete esta colina de neve,
num rastro quente de vapor que flutua,
mantém-me cativa nesta gruta de pedras vulcânicas…
enquanto me aqueces a alma sombria e a pele salgada…

Fui sereia do mar mas quero ser tua,
da nascente translúcida até à foz de cor púrpura...
Serei a ninfa de água doce que cuida do teu leito morno
e semeia cravos e tulipas nas margens fofas que te aconchegam!

És o meu par nesta dança serena que marca o compasso da brisa de leste...
Os teus lábios deslizam pelo contorno já ereto dos mamilos…
... são cerejas na tua boca...
... botões de rosa que te florescem nos dedos…
Temperas-me com a tua saliva agridoce e quente
até mergulhares na lava que brota do meu ventre!

segunda-feira, 28 de janeiro de 2013

O segredo


Desenho-te curvas, reentrâncias húmidas,
nessa tela transparente onde me revejo nua…
São tuas estas mãos que te possuem
e este corpo inteiro que te circunda
como a brisa primaveril despertando-te
do sono profundo de Inverno…

Bebo-te a seiva que me escorre fluida e morna
em cada linha da pele invisível que me veste a alma.
Conheço-te o sabor a chuva e a terra queimada,
viajei nos teus movimentos perpétuos, curvilíneos,
bailarina que ama o sol mas seduz a lua!

Numa bipolaridade secreta acaricias-me o rosto cansado
enquanto deslizo para o teu colo sereno e verdejante!



sábado, 19 de janeiro de 2013

Menina do Sol



















Traças-me o corpo com essa invisível capa de cetim,
abraçando-me num sopro fresco de inverno pálido
que descreve telhados de neve e ramos despidos.
Mas o teu hálito escalda-me o ventre em labaredas,
libertando esse vapor quente e macio que derrete 
as pequenas estalactites que nascem em cada braço de ferro:
o portão do parque ou o arco sobre o caminho prateado,
noutra época verde de folhas de plátanos imponentes
que abrigavam rolas e esquilos, rebentos de morango e alecrim.

Procuro as horas, os dias e os meses, ininterruptamente
como se os devorasse à velocidade dos meus passos nus,
que correm sobre o asfalto de gelo escorregadio...
Mas o minuto demora-se nas quedas que me golpeiam os joelhos e as mãos...
O rosto aninha-se-me nos braços cruzados ao peito quase dormente,
enquanto imagino o regresso dos campos verdejantes 
com os roseirais e as laranjeiras selvagens
saciando-se junto da nascente de água morna e cristalina
que despertara da estação mais fria do ano.

quarta-feira, 5 de dezembro de 2012

Morcego
















Sucumbo assim que escurece 
e o violeta esmorece 
na penumbra de um crepúsculo que desistiu de ser
e se abandona à opacidade de um mar negro, espesso, impenetrável...

É quando regresso ao meu estado original...
Refugio-me num dos ramos daquele plátano velho,
sem folhas, mas forte e imponente,
capaz de aguentar a fúria repentina
de uma tempestade de vento mais violenta...
As raízes colaram-se ao asfalto,
às placas que seguram o chão que pisas
e alimentam a lava subterrânea...
É a árvore da vida que me suporta o peso mortal!

A pele despiu-se da luz aparente
que me aquecia a alma
e retornou à toca de onde brotou doente...
Cega, escura,
sigo-te pelo ruído dos passos,
sinto-te a respiração mais ofegante,
rodopio-te sem me conseguires ver...

É tudo tão fugaz, efémero...
Ao mais leve pestanejar desapareço,
mas tatuei-te o corpo com as minhas impressões digitais,
com a minha saliva, com o fogo que me lavra o ventre...
Despertas a represa de água quente
que ecoa na minha fonte,
libertando-me desta clausura
que me sufoca em estilhaços de vidro!

domingo, 4 de novembro de 2012

Foz do rio Ser



















Autor: Raul Nunes


No meu colo embalo tantas lágrimas
quanto as que correm naquele rio de águas mornas mas revoltas,
naquele leito doce mas de pedras afiadas
que arranham o pé mais inocente que a calca...
São espinhos como os das rosas de pétalas macias
ou como os dos catos e ouriços que temem o desconhecido...

Com os braços nas duas margens de lama e ervas daninhas,
baloiço esse sal que te escorre da alma
como cristais que se liquefazem em gotas de luz
e jorram uma chuva de açúcar sobre a minha pele salgada...
Recebo-te por fim com os lábios rubros já em flor
ondulas suavemente por entre montanhas de pinheiros e granito
até te ergueres decidido à boca de um azul celeste prestes a escurecer...
... estala o primeiro trovão... o vento canta mais forte... intensifica os graves...
É quando te entregas a esta foz que te dará um novo ser!

quinta-feira, 30 de agosto de 2012

Ser mulher



















Se me esquecesse de mim
do corpo em que me materializo
e me faço carne e cinzas,
não seria eu nem o meu espelho
mas um lago turvo onde me liquefazia...
... seria um Outro apático, indefinido,
incapaz de sentir dor ou alegria!

Se misturasse a transparência numa paleta 
com tinta vermelha, verde e azul,
novas cores nasceriam com aromas desconhecidos,
indecifráveis pelo verbo ou o substantivo da língua...
Só a tela vazia lhe sente o sabor e a intensidade do pigmento,
que em manchas de luz e sombra
despe o branco dessa inocência cândida, clara, inútil,
dando-lhe a beber a seiva quente 
que jorra do meu ventre!

Se me abandonasse neste voo fresco da manhã
que desperta as damas da noite 
recolhidas no perfume que emana das suas pétalas,
seria a cantiga de criança com que adormecia
num embalo de rosas doces e alecrim!

E só me tornaria mulher quando anoitecesse
e o oceano me resgatasse os sentidos em suspenso
neste emaranhado de fios invisíveis
que escravizam marionetas sem alma,
corpos fantasma que se arrastam no asfalto, 
seguindo essas mãos assassinas que manipulam inocentes!

quarta-feira, 8 de agosto de 2012

Concha prateada






















Quando a lua se despe sobre o mar,
as estrelas protegem essa pele nua e cristalina
diminuindo a intensidade com que iluminam a vigília noturna.
Apenas um feixe mínimo te acaricia a tez prateada
e esse longo cabelo negro que esvoaça sobre os seios claros...
O vento beija-te o ventre húmido, abraçando-te o corpo firme...
Danças, subindo e descendo num voo rasante sobre a água,
enquanto as gaivotas espreitam curiosas esse amor cósmico
que se desenha em constelações de rosas e tulipas...
 
E assim que te entregas à noite,
uma fina névoa desliza sobre o leito denso,
que ondula em espuma e sal sobre os rochedos
que se erguem do imenso areal agora em silêncio...
Não há vozes, nem pegadas inscritas à beira-mar,
mas escuto-te no interior desta concha prateada!