quarta-feira, 11 de julho de 2012

Marcha


Sinto-te nua e despida
mancha amorfa que se dilata nas praças extensas,
arrastando os gritos, choros, lamentos e sonhos
de um arquétipo que afinal pode existir... basta crer!
Mas está longe destas mãos de ninguém
que agora empunham estacas de madeira
para elevar bem alta a voz que se contém cá dentro
diante dos líderes que se recolhem no mais vazio trono...

A estrada é larga e profunda,
o alcatrão confunde-se com a terra e a água...
Há espaço para mais indignados que não se curvam perante o medo
e que encaram de frente o vento que os empurra para trás
e as montanhas que nascem em frente como barreiras intransponíveis...

Depois desta jornada virá o sol e a nascente de água doce,
mas é preciso continuar a marcha!

domingo, 20 de maio de 2012

Entre dunas














Em cada poro respiro-te o perfume marinho
que ondula pela tua encosta de pedra,
mas polida pelas mãos de espuma branca
desse corpo salgado e imenso
sob a claridade do dia
e a vigília prateada da lua...

Ergues-te entre as dunas de areia macia,
sorvendo-me o licor de mel
que se destila em cada uma das minhas concavidades
de veludo e seda...

E quando o vento refresca esse sol quente de Primavera
começa a chover sobre a nudez que nos tinge a pele...
Ardemos sob esta água fria!
Enlaço-te uma e outra vez entre a foz do meu rio
até me alimentares de sémen e saliva!

domingo, 15 de abril de 2012

Regresso ao mar














Nesta lama escura,
mergulho a pele cansada
que me veste a alma
como se fosse um fantasma,
de olhos turvos, cerrados,
ombros descaídos,
carregando o peso invisível da gravidade,
e as pernas trémulas, ajoelhando-se,
a cada passo mais lento e fúnebre,
como se não aguentasse mais a respiração da vida...

Mas antes que a terra líquida me engula a cintura e o peito,
agarras-me as mãos e salto para o teu dorso fresco de maresia...
Vens do mar, das ondas azuis de espuma branca,
da areia fina e clara, do horizonte torrado de violeta...
Assim que regresso ao meu castelo de água volto a ser sereia.

domingo, 8 de abril de 2012

A denúncia de Günter Grass

O nobel a literatura Günter Grass quebrou o silêncio e denunciou o potencial nuclear de Israel. Agora é considerado "persona non grata" pelo povo judaico e está impedido de entrar naquele país.


















O QUE HÁ A DIZER

por Günter Grass [*]



Porque guardo silêncio, há demasiado tempo,
sobre o que é manifesto
e se utilizava em jogos de guerra
em que no fim, nós sobreviventes,
acabamos como meras notas de rodapé.

É o suposto direito a um ataque preventivo,
que poderá exterminar o povo iraniano,
conduzido ao júbilo
e organizado por um fanfarrão,
porque na sua jurisdição se suspeita
do fabrico de uma bomba atómica.


Mas por que me proibiram de falar
sobre esse outro país [Israel] onde há anos
– ainda que mantido em segredo – se dispõe de um crescente potencial nuclear,
que não está sujeito a qualquer controlo,
já que é inacessível a qualquer inspecção?


O silêncio geral sobre esse facto,
a que se sujeitou o meu próprio silêncio,
sinto-o como uma gravosa mentira
e coacção que ameaça castigar
quando não é respeitada:
“anti-semitismo” se chama a condenação.


Agora, contudo, porque o meu país,
acusado uma e outra vez, rotineiramente,
de crimes muito próprios,
sem quaisquer precedentes,
vai entregar a Israel outro submarino
cuja especialidade é dirigir ogivas aniquiladoras
para onde não ficou provada
a existência de uma única bomba,
se bem que se queira instituir o medo como prova… digo o que há a dizer.


Por que me calei até agora?
Porque acreditava que a minha origem,
marcada por um estigma inapagável,
me impedia de atribuir esse facto, como evidente,
ao país de Israel, ao qual estou unido
e quero continuar a estar.


Por que motivo só agora digo,
já velho e com a minha última tinta,
que Israel, potência nuclear, coloca em perigo
uma paz mundial já de si frágil?


Porque há que dizer
o que amanhã poderá ser demasiado tarde,
e porque – já suficientemente incriminados como alemães –
poderíamos ser cúmplices de um crime
que é previsível,
pelo que a nossa quota-parte de culpa
não poderia extinguir-se
com nenhuma das desculpas habituais.


Admito-o: não vou continuar a calar-me
porque estou farto
da hipocrisia do Ocidente;
é de esperar, além disso,
que muitos se libertem do silêncio,
exijam ao causante desse perigo visível
que renuncie ao uso da força
e insistam também para que os governos
de ambos os países permitam
o controlo permanente e sem entraves,
por parte de uma instância internacional,
do potencial nuclear israelense
e das instalações nucleares iranianas.


Só assim poderemos ajudar todos,
israelenses e palestinos,
mas também todos os seres humanos
que nessa região ocupada pela demência
vivem em conflito lado a lado,
odiando-se mutuamente,
e decididamente ajudar-nos também.



[*] Prémio Nobel de Literatura, autor de O tambor e A ratazana.


O original foi publicado no diário Süddeutsche Zeitung , assim como em The New York Times e no jornal italiano La Reppublica. A tradução para português encontra-se em Jornal de Negócios.


Este poema encontra-se em http://resistir.info

sábado, 25 de fevereiro de 2012

Borboleta



















O perfume ácido da laranja
crava-se-me na pele rugosa...
os maxilares tensos fazem ranger os dentes,
trinco uma semente mais agreste
e o veneno destila-se na língua,
envolvendo-me a saliva e as papilas gustativas!
Lá fora o vento sopra quente,
batendo no vidro fosco que me circunda o rosto...
Ramos despidos, secos,
partem a cada rajada mais forte
e a minha carne estremece
entre os dentes da tua boca...
São brancos, alinhados,
cegam-me os olhos encharcados...
mas Neptuno emerge do mar revolto
e salva-me das tuas mandíbulas de sangue,
libertando-me... sou novamente borboleta e consigo voar!

quinta-feira, 9 de fevereiro de 2012

Lua de fogo sem palavras















Perdi as palavras e as que restam tropeçam-me na língua
onde me crescem silvas e musgo...
Procuro-as no baú secreto das memórias,
mas desmaio nesta lividez
que me sustenta a alma...

Fujo do vento gelado que me desabotoa a blusa,
os mamilos endurecem no arrepio que me sobe pela espinha,
mas por dentro as chamas consomem-me de febre,
asfixiam-me neste suor frio e doentio...

Corro estrada fora como se voasse nesse sopro de Leste
que estremece as águas do rio e os campos de trigo,
toco as chaminés e as nuvens
e lá em cima a lua de fogo que me enlouquece!

domingo, 8 de janeiro de 2012

Indizível















Visto o chão quente da marcha dura
do vento pesado que vos empurra
para o uivo sombrio do anoitecer...
Seguro a caminhada dorida e monocórdica
deste fluxo de sangue e nervos,
elevando os corpos salgados
pela montanha acidentada... granítica,
de onde escorre uma névoa ao longo dos cabelos de chuva!

E neste movimento perpétuo de marés,
estanco o tempo e o refluxo do amanhã,
como se no presente coubessem o sonho e o indizível!