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Virginia Woolf por Vasco
...onde as palavras deambulam em quarto crescente e minguante...

Sílabas de cristal translúcido,
geladas do Inverno agudo,
moram no pico árido e rochoso
das montanhas acres da língua!
Ácidas como os citrinos verdes,
soltam-se em dardos afiados
contra os lábios meigos e sedosos
que lhe barram a escapada furtiva.
E, enquanto um sorriso pálido
me pinta o rosto sombrio,
a boca encerra feridas e aftas
no seu interior de veludo violeta.
Caiem-me as pálpebras
com as chuvas da noite!
Os dentes amordaçam-me o verbo
e a goela estrangula-me o berro!
Engulo as sombras famintas
e as nuvens de trovoada
explodem-me no ventre!

Viajo neste cordel a que chamam vida sem perceber muitas vezes o quão ténue é a margem que me impede de cair! Mas alguém consegue quantificar o valor de estar vivo?
Só quando nos deparamos com a morte é que algo irrompe do nosso interior e nos faz parar. STOP à azáfama quotidiana, aos gestos mecânicos, automatizados, à chave no carro, ao pé no acelerador, ao bom-dia e boa-tarde escondidos, quase invisíveis.
Os olhos projectam-se em lágrimas e escorrem-me pela face, visitam-me os corredores da alma, aqueles que tinha fechado a cadeado, para não deixar sair nenhum fantasma ou teia de aranha. Mas as portas escancararam-se... quem somos nós afinal neste universo infinito? Ínfimos grãos de areia, átomos de um corpo bem maior, gigante, de complexidade indefinida!
Resta-nos agarrar o Sopro que ainda temos, abrir os pulmões, enchê-los de ar e concretizar os nossos Sonhos!
Sandra faleceu na madrugada do dia 3 de Janeiro (domingo), vítima de um atropelamento em plena A29, quando socorria outro acidente. Em tua memória, público este post e dedico-te o videoclip! A música chama-se "Svo Hljótt", que em português será algo como "Silêncio Assim", o álbum Takk quer dizer "Obrigado".
Sandra, é o Silêncio que cumpro em tua homenagem e o Obrigado por teres existido!
Engulo a areia seca, estaladiça,
onde o Sol pousa a sua carícia dourada…
Guardo no meu baú de espuma branca
vestígios de mãos e pés…
que deslizam, saltam e brincam
nesses finos grãos de ouro,
que agora me banham
o litoral salgado!
sou bailarina e danço…
Cavalgo-te o dorso cristalino
sob um céu de nuvens e penas de gaivotas
e canto as notas agudas do dia,
com os ventos quentes de leste
a trovejar a noite grave que se avizinha!
na luz amena da tarde
e deixo-me boiar
neste tapete de águas profundas…
chão do meu ser fugaz e ondulante,
e descubro um imenso areal submerso…
Algas, conchas, búzios,
cardumes multicolores
famílias inteiras de golfinhos
habitam-me o mundo subterrâneo!
Mas tenho pulmões de mamífero!
Venho sempre à tona sorver
esse ar fresco que viaja nas tuas costas de mar!